Falso “cognato” (3)
Arrogância e orgulho
Arte e ciência (1)
Um amigo formado em Matemática, mais crente nela – e em Deus – que em qualquer outra coisa, afirmou-me, certa vez (palavras que não me foram nem um pouco surpreendentes, diga-se de passagem), que a arte não passava de uma distorção da realidade, da natureza, e que, sob tal circunstância, ela seria inútil para a compreensão da mesma, se não, por vezes, até mesmo indesejável. Falei-lhe que tomasse cuidado com seus argumentos e suas “crenças”: que a ciência não lida com verdades absolutas; que a ciência trabalha com teses que porventura podem vir a alcançar o status mais firme e válido de teorias; que a ciência, portanto, trabalha com validade e não verdade; que uma teoria super-aceita hoje pode vir a ser derrubada por outra mais aceitável amanhã, como tantas vezes ocorreu ao longo do tempo e nos nossos dias ocorre em ritmo exponencialmente mais acelerado que o de outrora, em virtude das atuais inovações tecnológicas e avanços nos estudos científicos – muitos destes propulsionados ou mesmo somente possibilitados através daquelas – em maior grau, velocidade e complexidade, por vezes teorias contraditórias convivendo numa (falsa?) dialética por um bom tempo até que uma delas acerte a pontaria na testa da outra; que o que muitas vezes se chama de lógica não passa de abstração humana; que o Universo não obedece tão-somente a leis ditas lógicas como tantos pensam; que a física quântica taí para provar os paradoxos do Universo, a falta de lógica dele; que um grupo de cientistas – inclusive, como não poderia deixar de ser, matemáticos –, há algum tempo, cogitam na possibilidade da Matemática não ser exata como se pensa, o que só aumentaria tanto meu pavor quanto minha satisfação ao saber que 2 + 2 não é igual a 4, que mais certezas consideradas absolutas seriam destronadas desse posto; que a ciência e a arte buscam em parte as mesmas verdades, só que através de caminhos diferentes – ou convergentes, a depender do grau de boa convivência de cada movimento/escola/geração artística, de cada autor, com a ciência, havendo inclusive aqueles que procuraram fundamentar suas investigações do ser humano e do mundo na própria ciência, sequiosos de seu (suposto) rigor, objetividade e certificado de validade, emulando tais princípios no objeto estético –, de linguagens diversas, portanto, em vista disso e de todos os outros argumentos supracitados, igualmente válidas nas tentativas de investigar, apreender e/ou compreender a realidade, guardadas as devidas peculiaridades de cada uma das duas; que a arte inúmeras vezes precedeu a ciência, em virtude da extrema sensibilidade, intuição e compreensão profunda de determinados aspectos da vida e de suas possibilidades dinâmicas (e dialéticas), possuídas pelo artista; que (apelando um pouco) boa parte da ciência não se dá bem com a ideia de Deus ou com qualquer outra representação do divino, imaterial, metafísico e/ou sobrenatural, mas a maior parte dos artistas o sentia profundamente.
JL, 18 de maio de 2011
Falso “cognato” (2)
Outro par léxico traiçoeiro semanticamente: arrogância e prepotência.
JL, 7 de agosto de 2011
Falsos “cognatos”
Não confundam o significado (não falo nem de sentido, não pretendo ir tão fundo na subjetividade) de certas palavras-chave do nosso cotidiano tão próximas semanticamente umas das outras, traiçoeiros pares léxicos: ingenuidade e inocência, êxito e sucesso (Ariano Suassuna foi bem taxativo sobre este na aula-espetáculo dele a que assisti ontem, na minha cidade), amor e paixão (assim como amor e afeto).
JL, 29 de julho de 2011 (agorinha mesmo)
Artista e cientista
Uma coisa que o artista e o cientista têm em comum: a análise mais acurada exercida por um e por outro requer muita dose, no primeiro, e alguma, no segundo, de intuição e sensibilidade.
JL, 12 de julho de 2011
Exercer o egoísmo através do altruísmo
O altruísmo é a forma mais politicamente correta e estratégica (preciso acrescentar ainda “e nobre”?) de exercer nosso egoísmo. E não falo apenas daquele em sua intenção interesseira (mas toda intenção já não é ou não revela interesse? bem, vocês entenderam, acho, o que eu quis dizer) mais comum, usual, geralmente material. O toma-lá-dá-cá. Um favor à espera de outro. A gratidão não-gratuita. A execução de um ato à espera de um benefício material (ou de outro ato que possa ser revertido ou resultar no mesmo). Refiro-me também, e principalmente, à expectativa por uma reciprocidade afetiva, amor ou amizade (este também uma forma de amor, “um amor que não acaba nunca”, como auspiciosamente o definiria Mário Quintana), à busca do prazer no outro (não sejam tão maldosos, falo de mais de um tipo de prazer). Presentear alguém com um livro a fim de ter com quem conversar sobre o mesmo.
JL, 12 de julho de 2011
Amizade (3)
Uma das piores sensações da vida é se ver cercado de amigos e de súbito ser tomado (permito-me usar essa locução verbal pela força expressiva da mesma e por “conveniência” discursiva, porque sabemos muito bem que não se trata de uma epifania propriamente dita) pela compreensão ou suspeita de que nenhum ou quase nenhum deles o é de fato, ou não em intensidade proporcional à com que você retribui sua amizade aos mesmos. É sentir-se solitário e incompreendido quando rodeado de gente aparentemente interessada em você (soou egoísta?). Perceber que você, por uma falta de humildade canalha e/ou uma incompatibilidade de gostos, de bagagem cultural e de visões de mundo, mais que de personalidades – porque entre estas não raro os opostos se pretendem completar, sobretudo quando você busca exatamente o seu reverso para balancear tal equação, experimentar uma convivência mais intensa com o diferente de si mesmo e/ou até resgatar nostalgicamente o seu “eu” da infância há muito perdido, que porventura seja encontrado numa personalidade alheia, devido ao fato desta jazer [mais] preservada dos traumas infantis e portanto mais simples ou mesmo simplória, alegre e otimista, embora tais relações geralmente não consigam se sustentar por muito tempo, “fadadas ao insucesso”, o que me dá o benefício da contradição –, perde de deslanchar uma grande amizade, ao passo que valoriza mais outras, porém nas quais a reciprocidade não se dá no mesmo grau.
JL, 11 de julho de 2011
Surreal ironia
Irrita-me o espanto ou surpresa que o fato de um desempregado pobre, sem quase ninguém financeiramente por si, não ter dinheiro provoca em algumas pessoas. Por que o óbvio e/ou o lógico, sobretudo quando se trata da condição socioeconômica não tão favorecida (eufemismo) de certos indivíduos, calha de ser tão surreal a determinadas mentalidades (e não, não me refiro apenas às mentalidades cujos donos são mais abastados materialmente)? (Típica e ironicamente, pensamento comum entre brasileiros?)
JL, 11 de julho de 2011

